A intervenção urbana é uma forma de arte cujo objetivo é interagir, de maneira criativa e poética, com o espaço cotidiano e as pessoas. As intervenções são capazes de reinventar, ainda que momentaneamente, novos sentidos ao espaço escolhido e suscitar novas percepções às pessoas.

23.8.16

Encerramento de atividades


É com carinho e respeito a todos os parceiros de trabalho e público que nos acompanharam durante a trajetória de sete anos do Coletivo PI que informamos que o grupo encerra suas atividades. 


Foram anos de muita criação, descobertas e reflexões sobre arte e cidade, as maneiras de criar relações de diálogo e afetividade nas áreas públicas. Todas essas experiências geraram nossas obras que marcaram não só os espaços e o público, mas a existência de cada um de nós enquanto artistas e pessoas. 

Agradecemos a todos que cruzaram nosso caminho, contribuindo para consolidação de nossa Arte e fomentando o prazer e a vontade de criar. O Coletivo PI agora segue como memória e experiência no repertório de cada um de nós, e estamos certos que isso ressoará nas escolhas e novos rumos.

A nossa página será desativada, mas o blog permanecerá para acesso ao nosso histórico e trabalhos. 

E agora é hora de cada um caminhar por novas estradas, derivas, encontrando novos parceiros e tendo a certeza de que esses sete anos foram de dedicação, amor e muitas descobertas, revelando as belezas da cidade e o quanto temos que criar espaços de alteridade... Então, caminhemos!


No entanto, cabe a nós pensar como dar um novo significado 
às nossas cidades, um significado que transponha o prosaico objetivo 
do cumprimento de nossas obrigações do dia-a dia (...) 
A reconciliação entre o cosmo e a terra, o sacro e o mundano, 
a cidade e a natureza, os cidadãos e as suas instituições, 
e entre seus próprios cidadãos.

(Fernando Diniz Moreira. Prefácio do livro "A ideia de cidade")


Entre Saltos. Jardim Itatinga, Campinas/SP, 2014. 
Foto do nosso eternamente querido parceiro Rodrigo Dionísio.

4.4.16

Sarau do PI: ressoando as vozes femininas

No sábado dia 19 de março aconteceu no SESC Taubaté mais uma edição do Sarau do PI, dando continuidade a temática da Literatura Feminina Contemporânea, iniciada na Casa das Rosas em 2015 com um ciclo de quatro edições.

O sarau do PI é uma tradição, originada em 2010 quando tínhamos nossa antiga sede na zona norte de São Paulo e reunia amigos e pessoas interessadas em partilhar experiências artísticas, pequenas cenas, leituras, performances e canções. Em 2015 o projeto ganha uma nova força com a escolha de abordar a literatura feminina contemporânea e novas artistas, dando voz para essas produções. Assim, ocupamos a Casa das Rosas no primeiro semestre daquele ano, agregando pessoas à discussão e divulgando essas novas produções.

Agora em março a convite do Sesc Taubaté levamos esse formato para cidade, realizando um sarau intimista, de muita troca e diálogo. Na programação tivemos o bate-papo mediado pela Talita Mochiute, parceira nossa para área de literatura, com a escritora Lilian Aquino e as poesias de seu livro “Pequenos Afazeres Domésticos” e de Michele Santos, organizadora do Sarau Sobrenome Liberdade, que recentemente lançou o seu livro “Toda Via”. A conversa versou sobre as desigualdades ainda presentes no cenário artístico e literário da divulgação e espaço para produções de mulheres. O lugar de onde se escreve que é sempre carregado da história de cada pessoa.  Aqui, Michele ressaltou a importância dos movimentos de saraus e escrita independente na periferia para quebra do “EU” masculino e contribuindo para formação de outras perspectivas para jovens e garotas além do universo doméstico.  Lilian ainda colocou na prosa, os poemas de Ana Cristina César.

Mais uma vez, tivemos a presença de Paula Castiglione, grande amiga, interpretando com voz e piano grandes compositoras brasileiras: Chiquinha Gonzaga, Dolores Duran, Carolina Maria de Jesus e Rita Lee. Sem contar, a irreverência de Priscilla Toscano e Paula dando vida à musica Mulher de Fases.  Relembrando que durante muito tempo na nossa história as mulheres eram caladas ou suas composições eram assinados por homens. Ainda tivemos o experimento meu e de Priscilla de uma versão para a ação: O que você carrega na sua bolsa? , em que retiramos da bolsa objetos que transformam a nossa aparência, elementos da imposição de padrões e comportamentos sociais. Ao final, nos livramos deles e deixamos no espelho a frase: Nossos corpos, nossas regras.

Corte
Decidiu raspar os cabelos
Ela mesma
Sua intimidade com tesouras
E objetos pontiagudo
lhe dá esse ar
louco, redemoinho.
E careca,
É mais fácil sangrar.
(Lilian Aquino)

O encontro, mesmo breve, teve muita participação das pessoas, lendo seus poemas preferidos, suas histórias, falando de si e do mundo, tornando a palavra uma escuta coletiva. No espaço, também deixamos uma pequena instalação poética com um varal de postais e poemas como um cantinho sagrado de uma casa que reconta as memórias de quem ali vive, nesse caso, as lembranças de nossa trajetória.  Por fim, terminamos com a performance Me traziam a Lembrança daqui ... de Luanah Cruz,  no qual a artista se relaciona com o público usando um vestido de mais de 30 metros, um corpo-feminino-tapete, que se transforma ao longo da ação com poesias, desenhos, histórias deixados pelo público. Luanah caminhou pelas ruas da unidade, deixando um rastro ali de nossa passagem.
 
O sarau, trazendo as palavras de Talita: é mais um desses encontros importantes que nos lembram que não estamos sozinhas.  Para mim, que sugeri para o PI o disparo inicial de criarmos um sarau sobre literatura feminina lá em 2014, vê-lo acontecer sempre traz a possibilidade de compartilhar palavras, memórias, zonas de silêncio e, sobretudo, fortaleça a luta por uma sociedade menos Ele e Ela e mais NOSSA ou seria ENTRE?

Entre ser com
E ser contra
Sejamos entre
(Michele Santos)

Por Pâmella Cruz







21.3.16

Entre Saltos no ventre da São Paulo: sapatos e cabelos unidos para a consagração da ARTEmísia que existe dentro de nós

Mais uma vez realizamos a performance Entre Saltos na cidade de São Paulo. Dessa vez a intervenção foi realizada no centro da cidade. Partimos do Vale do Anhangabaú, em direção ao Mosteiro São Bento e de lá seguimos até a Catedral da Sé e retornamos pela rua Direita, passando pela praça do Patriarca e finalizamos a ação deixando a instalação na Fonte dos  Desejos que fica na escadaria do vale ao lado do Teatro Municipal.
Foto: Rodrigo Dionisio
Foram três dias de oficina de performance urbana ministrados por mim e Natália Vianna. Encontros fundamentais e preciosos para a construção da harmonia, igualdade e  conexão do coletivo que interviu no último sábado, 12 de março pelas ruas do centro.
Eu propus ao grupo uma série de estímulos durante o processo de pesquisa do trajeto que renderam muitas conversas e um espírito criativo necessário a alma de um coletivo de artistas. E assim o grupo decidiu que no caminho seriam deixados rastros da caminhada desequilibrada. Também concordaram que a praça e a catedral da Sé mereciam um “carinho” especial.
Foto: Pedro Vale
 As ideias foram discutidas durante as oficinas. Pessoas tão diferentes em um círculo, mas com ideais idênticos e vontades unificadas a fim de dizer “sim!”.
As quinze horas do sábado o grupo saiu do Centro de Referência da Dança e seguiu em direção ao Vale do Anhangabaú, e logo no início presentearam o Ilustríssimo Senhor Rui Barbosa com uma nova boca. O político ganhou lábios mais carnudos e o batom rosa pink lhe caiu muito bem.
Saltos seguiram marchando e ecoando na imensidão do vale. Uma gari se compadeceu do grupo e por alguns metros decidiu varrer os cacos de vidros que estavam em nosso caminho “Deixa eu varrer para as meninas não cortarem os pés” disse a funcionaria da prefeitura.
Subimos pela escadaria do metrô São Bento para chegar ao Mosteiro e anunciamos essa chegada forjando o som do nosso próprio sino ao bater forte com os sapatos no corrimão de alumínio da rampa de acesso.
E ali no oratório esculpido na parede do Mosteiro, logo abaixo do monumento do santo, eu depositei um sapato de salto alto rosa, o segundo rastro dessa caminhada. Ficou tão bem acolhido ali, que parecia que aquele oratório foi planejado para receber um salto rosa.
Fotos: Rodrigo Dionisio

A poucos metros dali,  na Rua XV de Novembro, a escultura fofa de um anjinho em uma fonte também recebeu lábios cor de rosa choque.
“Prostitutas, obra do demônio personificada na cor escarlate, herege, pomba-gira, vadias...” foi o que ouvimos no final da XV de Novembro, anuncio inicial dos demais discursos feminofôbicos que também ouviríamos por toda Praça da Sé, dos fanáticos religiosos com suas bíblias em mãos.
O grupo das vinte e cinco “vadias” que eu prefiro chamar de “obra da arte personificada na cor escarlate”, ao se dirigir a escadaria da Sé tinha um passo tão firme e uma cor tão vibrante, que parecia que éramos o dobro de nós. Nos posicionamos enfileiradas, ombro a ombro. E como eu disse no inicio tínhamos planejado um “carinho” especial para a Sé. Eu havia dito ao grupo que desejava queimar algo ali. E em meio a diversos palpites surgiu a ideia do Jean Carlo Cunha, integrante do PI: cabelos. Sim, a ideia foi a de cortar pedaços de nossos cabelos, unindo o DNA de todas as Entre Saltos como oferenda para queimar diante do templo do desequilíbrio. “Mas temos que sublimar” acrescentou a Chai Rodrigues, “então vamos defumar, vamos depositar os cabelos em um turíbulo e benzer a Sé com nossas madeixas” concluiu a pisciana.
Foto: Rodrigo Dionisio

Sugeri uma erva para queimar junto com os cabelos, uma erva chamada Artemísia, que possui propriedades ligadas a vibração astral feminina, ao equilíbrio e fortalecedora da feminilidade. Se consumida de maneira inapropriada também pode ser abortiva. Para nossa surpresa, no último dia de oficina a Natália Vianna nos veio com a informação de que no século XVII existiu uma artista chamada Artemísia Gentileschi, uma pintora italiana que foi uma das únicas mulheres a serem mencionadas no ramo da pintura artística do barroco. Ela dedicou-se a temas trágicos em que suas personagens femininas representam papéis de heroínas. Artemísia foi estuprada aos 17 anos por Agostino Tassi, um assistente do ateliê do pai. No julgamento dele torturam-na para julgar a vericidade de sua versão. Não podendo ficar em Roma, foi-lhe arranjado um casamento de conveniência. Separou-se depois de dez anos e partiu rumo à Florença, onde descobriu uma vida empolgante no mundo das artes na Itália do século XVII e, com o crescente sucesso de suas obras, tornou-se a primeira mulher a entrar para a Academia de Arte de Florença. Com essas informações tínhamos certeza de que a erva sugerida por mim seria o melhor ingrediente para misturarmos aos nossos cabelos no turíbulo para benzer toda a Sé. E assim foi feito. Na escadaria, de costas para a catedral, a tesoura passou de mão em mão. Aos poucos o turíbulo foi ficando recheado de fios, cachos e madeixas de diversos tons e cores. Por último despejei a Artemísia, e seguimos espalhando a fumaça da combustão da unificação de nossas células, de nossos anseios e desejos. E seguimos, cruzamos novamente a praça e antes de deixá-la, mais um rastro: o marco zero recebeu também um salto rosa, presentinho do grupo de Artemísias escarlates.
Foto: Rodrigo Dionisio

Foi seguindo pela Rua Direita que percebemos que o salto alto rosa deixado no marco zero ficou pouco tempo ali. Três moradores de rua passaram a nos acompanhar e traziam o sapato rosa. Eles tinham uma garrafa de cachaça e  usavam nosso salto rosa como copo.  A intervenção na intervenção, a performance na performance.
Foto: Cris Fraga


Foto: Pedro Vale












Chegamos na praça do Patriarca e ali nos esperava o aristocrata José Bonifácio. O Patriarca da Independência não podia ficar de fora de nossa criatividade pink, por isso o monumento recebeu um singelo triângulo como adorno. Será que essas meninas querem discutir gênero???? Acho que o Patriarca finalmente sacou que sim.

Foto: Rodrigo Dionisio

Prefeitura, viaduto do Chá, Teatro Municipal e pronto! Chegamos ao ponto de partida e fechamos nosso circuito. Dessa vez a já tradicional instalação de sapatos que marca o fim do trajeto, foi deixada na Fonte dos Desejos, réplica da que existe em Roma, lá as pessoas jogam moedas e fazem pedidos, aqui em São Paulo é um grande mictório a céu aberto. Nossos saltos foram nossas moedas, atiramos em direção a fonte. Em sincronia o grupo jogou os sapatos e ao nosso lado estavam os três moradores de rua com o salto alto rosa, e um deles seguiu os movimentos do grupo e arremessou o sapatinho rosa. E mais uma vez eu confirmei a mim mesma: a beleza da intervenção urbana está na espontaneidade do inesperado que por nós é sempre esperado como válvula de motivação que nos faz seguir intervindo e performando nas ruas.
Por Priscilla Toscano

FICHA TÉCNICA ENTRE SALTOS - Centro de São Paulo - 12.03.2016

Criação e realização: Coletivo PI
Direção: Priscilla Toscano
Assistente de direção: Natália Vianna
Performers: Priscilla Toscano, Pâmella Cruz, Natália Vianna, Chai Rodrigues
Participantes da performance: Adriana Archanjo, Anahy Sales, Andrea Barbour, Andrea Lopes, Douglas Torelli, Elisete Pereira dos Santos, Emanuela Araujo, Evelyn Ramos da Silva, Felipe Gonsalves, Guilherme Novais, Julio Razec, Leandro Brasilio, Manuella Alves da Silva, Marcelo Prudente, Maria Oliveira, Marie Auip, Mellanie Reis, Nathalie Brunetti, Rayssa Avila do Valle, Rosana Pellegrini
Direção de produção: Priscilla Toscano
Assistente de produção: Mari Sanhudo
Apoio técnico: Chai Rodrigues e Jean Carlo Cunha
Comunicação: Pâmella Cruz e Chai Rodrigues
Assessoria de imprensa: Luciana Gandelini